Como ferramenta da captação das necessidades inerentes ao projeto para ambientes de saúde

 

Ainda que saúde seja “um estado razoável de harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade”, precisamos entender como despertam as necessidades de saúde individuais e coletivas para melhor atender os pacientes nos diversos cenários do cuidado. Indo mais além, a partir do momento que conseguimos refletir sobre conceitos de saúde e necessidade de saúde fica claro que a arquitetura está inserida no contexto de necessidade dos indivíduos, principalmente em se tratando na classificação apresentada pelo autor Cecílio (2001), o qual traz que “cada indivíduo possui uma cesta de necessidades de saúde básicas“ sendo elas: ter boas condições de vida, criação de vínculo entre profissionais e pacientes, necessidade em se consumir toda tecnologia e autonomia.

Portanto, não estaria a Arquitetura atrelada a todo o processo tecnológico? Desde um elevador a uma máquina ultramoderna de ressonância magnética? Não estaria a arquitetura presente na necessidade de conforto a se esperar determinados atendimentos e procedimentos? Não estaria a arquitetura na humanização dos ambientes os quais contribuem para recuperação do paciente? Entendemos que sim, a arquitetura faz parte do processo de restabelecimento da saúde e também pode ser incluída como necessidade de Saúde.

Michel Foucault (1979), ao analisar em seu livro Microfísica do Poder, o nascimento do hospital terapêutico no final do século XVIII, tratou magistralmente dessa questão ao escrever: “A arquitetura hospitalar é um instrumento de cura de mesmo estatuto que um regime alimentar, uma sangria ou um gesto médico”.

Dessa forma, fica fulgente que as necessidades que cada sujeito possui diante da vida e a forma a qual os arquitetos pretendem projetar Espaços Assistenciais de Saúde devem ser capazes de captar essas subjetividades.E como poderíamos captar essas necessidades dos sujeitos em relação ao edifício?

A APO - Avaliação Pós-Ocupação é um processo sistematizado e rigoroso de avaliação de edifícios, após um determinado tempo de sua construção e ocupação. Sua abordagem privilegia a visão dos ocupantes do edifício e suas necessidades, a partir das quais analisa a adequação, ou não, das decisões de projeto sobre o uso efetivo da edificação.

Assim, a APO, se refere, na prática, a uma série de métodos e técnicas que visam diagnosticar os fatores positivos e negativos dos ambientes durante o uso, considerando pontos socioeconômicos, de infraestrutura e superestrutura urbanas dos sistemas construtivos, conforto ambiental, conservação de energia, fatores estéticos, funcionais, comportamentais e de acessibilidade, a partir não apenas do ponto de vista dos projetistas, mas também dos usuários.

Portanto, a APO é uma metodologia utilizada para captar a satisfação, comportamento e desempenho dos edifícios, logo avaliar os edifícios sobre a ótica da APO é captar também as necessidades de saúde dos usuários.

Os instrumentos a serem escolhidos para captar essas subjetividades precisam ser criteriosamente selecionados de acordo que garanta minimamente essa descoberta. De forma simples e clara de ser compreendida, podemos relacionar a escolha dos instrumentos com a atividade de pesca.

Assim, os instrumentos podem ser comparados como a rede de pesca, com propósito de pescar descobertas. A densidade da malha depende da natureza e do tamanho dos peixes a serem pescados. Se a malha da rede é definida previamente (somente pelo pesquisador), é previsível que deixaremos escapar certas sutilezas. Caso o tamanho da malha seja definido em conjunto com os ocupantes (usuários) é provável que muitos deles ficarão retidos (pescados).

A figura abaixo permite refletirmos sobre os diversos métodos de avaliação, técnicas e instrumentos que compõe as etapas de um trabalho como nos propomos a realizar. Há levantamento de dados para análise dos procedimentos, produtos e projetos arquitetônicos, de uma edificação, espaço ou desenho urbano.

Apesar da mulher alcançar a oportunidade de se instruir como os homens, ainda hoje as oportunidades no mercado de trabalho não são as mesmas para ambos os sexos. Na atualidade pode-se averiguar que há uma cisão de gênero dentro das profissões, um bom exemplo disso é o setor da enfermagem.

Figura 01. Modelo de processo de projeto em arquitetura com a demonstração dos vários tipos de avaliações recomendadas ao longo do ciclo de projeto, obra e ocupação.

 

Dentro das diversas ferramentas capazes de captar as necessidades de saúde através da metodologia APO, listamos algumas:

  • Walkthrough: método de análise que combina simultaneamente uma observação com uma entrevista;
  • Mapa comportamental: instrumento de registro das observações sobre o comportamento e as atividades dos usuários em um determinado ambiente;
  • Mapeamento visual: instrumento que possibilita identificar a percepção dos usuários em relação a um determinado ambiente, focalizando a localização, a apropriação, a demarcação de territórios, as inadequações, a situações existentes, o mobiliário excedente;
  • Mapa mental: instrumento baseado na elaboração de desenhos ou relatos de memória representativa das ideias que uma pessoa ou grupo de pessoas tem de um determinado ambiente;
  • Seleção visual: instrumento construído a partir de imagens previamente escolhidas possibilitando identificar valores e significados relacionando ambiente e usuário;
  • Entrevistas: instrumento que capta relato verbal ou conversação “com um determinado objetivo”;
  • Questionários: instrumento de pesquisa que contém uma série ordenada de perguntas relacionadas com determinado assunto ou problema, que devem ser respondidos sem a presença do pesquisador;
  • Poema dos desejos: instrumento que permite a captação dos sentimentos, necessidades e desejos relativos ao edifício.

Figura 02. exemplo de aplicação do instrumento poema dos desejos realizado por uma criança.

Acreditamos que a Avaliação Pós Ocupação quando inserida no contexto do dia a dia da arquitetura, pode ser uma ferramenta de impacto que contribui com o cenário da saúde atuando diretamente com os usuários de forma a captar magistralmente cada desejo, cada percepção, cada subjetividade, de maneira que o arquiteto também realize a escuta ampliada, desempenhando seu papel eficaz na rede de cuidados.

Inserir a APO no processo projetual dos ambientes de saúde é priorizar a qualidade da construção visando o melhor desempenho do edifício e satisfação dos usuários.

Bibliografia

 
 
  • CECÍLIO, LCO. As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção à saúde. In: Pinheiro R, Mattos RA, organizadores. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO; 2001. p. 113-26.

  • FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. 1979, p. 109.

  • ORNSTEIN, S.W; VILLA, S.B. Qualidade ambiental na habitação: avaliação pós-ocupação. São Paulo: Oficina de Textos, 2013.

Autor

Carla Andrade

Arquiteta Associada à CABE Arquitetos - Arquitetura para o setor da Saúde no Centro Oeste Paulista. Pós-Graduanda em Arquitetura Hospitalar pela Instituição Abert Einstein. Enfermeira e Mestre em Saúde e Envelhecimento pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA). Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Tel.: (014) 8183-4732

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